A necessidade que o actual governo tem de marcar a sua posição relativamente ao 25 de Novembro de 1975 (data fundadora da democracia portuguesa, concedo desde já, essencialmente devedora ao PS de Soares e aos militares signatários do Manifesto dos Nove) é a imagem de um trauma que ainda não foi ultrapassado. O trauma de quem herdou um pavor irracional causado por uma inédita e irrepetível convulsão maluca, com milícias armadas e muito extremismo, com expropriações e apropriações dirigidas por quem declarou morte à grande propriedade e a destinou ao povo, como se isso pudesse ser decretado, e organizado, e bem sucedido, e sem resistências. O trauma de quem foi educado na crença de que a seguir ao 25 de Abril Portugal esteve a um passo de uma ditadura comunista, como se os Estados Unidos o tivessem permitido.
Um trauma que encontra o seu espelho em todos quantos ainda suspiram de saudade quando se lembram desses dias. Não porque desejassem uma ditadura, era o que mais faltava depois de uma ditadura, mas porque viveram muitos meses num alvoroço revolucionário que contrapôs à repressão horrorosa do Estado Novo dias inteiros de alegria e de liberdade para inventar e experimentar novos modelos de organização política. Coisas magníficas se tentaram durante esses dias longos de esperança infinita, gente a tentar fazer uma nova sociedade, a experimentar ser a Mulher Nova, o Homem Novo, alguns a vender Avantes, outros a cantar fados sobre quem tinha resistido dentro da cabeça nos países que Portugal tinha colonizado, outros ainda a voltar para casa de madrugada vários dias depois de terem saído para comprar cigarros (toda a gente fumava!), com as costas doridas de terem andado a apanhar azeitona nas herdades alentejanas ocupadas.
50 anos volvidos desde a intervenção militar que pôs fim ao mais excêntrico período da História recente, a direita portuguesa reclama ainda a monumentalização de uma “vitória” sobre um inimigo de carácter grandemente imaginário. A “razão ideológica” que a direita gosta de apontar à esquerda que resiste à institucionalização da celebração do 25 de Novembro é afinal uma razão ideológica da própria direita que, várias décadas mais tarde, revela um insólito anti-comunismo primário (esse lugar comum, sem tirar nem pôr), salazarista, macarthista, delirante, em suma. Bem sei que aconteceram coisas traumáticas para a direita, constitutivamente afeiçoada à disciplina, de preferência castigadora, que é para fazer mais piegas.
A 21 de Novembro de 1975 um impressionante juramento de bandeira pôs 170 novos recrutas de punho erguido a declarar-se “ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador, com voluntária aceitação da disciplina revolucionária, contra o fascismo, contra o imperialismo, pela vitória da revolução socialista”. Mais: ao final da tarde de 25 de Novembro de 1975, o 2.º Comandante da Escola Prática de Administração Militar, Capitão Duran Clemente, que dirigia a ocupação da RTP, surgiu nos ecrãs da televisão apelando à insurreição do povo. Como se atreveram, pergunta ainda hoje a direita classista e supremacista.
Contida a extravagante vaga de rebeldia militar, Melo Antunes lembrava, na tevê a 26 de Novembro, que a democracia implicava a integração do adversário. Essa declaração mudou a face da então nascente democracia portuguesa, inibindo (desacelerando) uma recomposição das estruturas de poder.
Período esdrúxulo que deixou eternas saudades à esquerda e perpétuas raivas à direita, o pós-25 de Abril, e muito particularmente o Verão Quente – quando um doido triunfalismo revolucionário se ergueu no imaginário de uma pequenita parte de uma população essencialmente constituída por pessoas não politizadas, entretanto acrescentada pelos regressados da descolonização portuguesa – foi uma breve excentricidade, destinada a ser ultrapassada por um expectável e necessário reordenamento dos poderes, o todo vindo a ser inscrito em letra de lei pela Constituição de 1976.
Quase meio século de autoritarismo e miséria e treze anos de criminosa e já então anacrónica guerra colonial tinham de gerar excessos. Abertas as comportas, a população foi com o caudal – tal como tinha feito no 25 de Abril de 1974, transformando um golpe de Estado numa revolução. Descobrindo a cada dia a que ponto tinha sido abusada na sua humanidade. Os militares não foram excepção. “A sede de uma espera só se estanca na torrente” (Sérgio Godinho).
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