O Partido Socialista, nascido social-democrata (nenhum problema com isso, mas um rebranding teria sido de grande utilidade, designadamente para uma outra definição do PSD), diz que é de esquerda, e eu acredito que queira ser, e que na sua doutrina de base os valores da esquerda (e desde logo o que defende uma ideia de sociedade cuja grande utopia – no sentido de engenharia das possibilidades – é o acesso à igualdade) enformem o seu programa ideológico. Bastará lembrar que muita gente habitualmente desconfiada do grau de esquerdismo do PS(D) foi seduzida pelo discurso socialista e votou nas primeiras eleições primárias que houve em Portugal, quando se escolheu entre António Costa e António José Seguro. Sobretudo, era preciso afastar Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas do poder. Nesse momento (2015) ocorreu uma interessante clarificação no interior do PS(D), e a facção mais direitista (a que tem desde sempre feito do PS(D) “um partido de esquerda-direita“) foi afastada do poder. Regressa agora na pessoa de António José Seguro (AJS), um boy do PS(D) que tem tido ao longo da sua vida ambições de poder que a cada vez a realidade inviabiliza.
Qualquer coisa em AJS não consegue. É como com os artistas quando o talento não está lá, por mais que se esforcem. Há ofícios em que o esforço não paga. A liderança política é um deles. A liderança política requer carisma, ao menos algum, um sopro de genialidade, ao menos alguma, ou de graciosa espontaneidade, ou até mesmo de elegante displicência, mesmo se apenas aparente, de desapego ao poder (constitutivamente contingente e efémero), enfim, qualquer coisa que distingue essa pessoa candidata ao poder (sobre um grupo, maior ou menor, de outras pessoas) das demais. Que a distingue e ilumina naquele momento específico, naquele tempo com o seu espírito particular, naquela hora e não noutra, no rigoroso momento em que a pessoa se chega à frente e apela às outras para que a sigam.
Sucede que a massa do espírito do tempo presente é dura que nem pedras, tempo afunilado, de encontro de contas dos injustiçados com a História recente – a nacional e a internacional, ó vítimas da fome que grassa em toda a parte como um espelho retorcido (e torcido, com mão do Malévolo) das economias excedentárias que emergiram com os 30 Gloriosos, quando o Mundo ia enfim renascer e íamos todos poder ser iguais. Aqui chegados, a um tempo ausente de esperança (agradeçam a Reagan e a Thatcher, os queridos líderes do neo-liberalismo que sem demoras sobreveio à gloriosa prosperidade esperançosa de 1945-75, e agradeçam também a Mitterrand, o ami de Mário Soares), quem poderá representar com verdadeira pinta um país como Portugal – país antigo, praticamente primitivo, sempre em crise super-identitária, sempre na valorização das diuturnidades históricas, sempre com um pé no chinelo da miséria (má conselheira) e outro na bota cardada do colonialismo ainda bem vivo na sua cultura? A racialização que prossegue a sua caminhada na sociedade portuguesa o que é senão uma herança de um ADN racista? Os sucessos do Chega ilustram-no com brutal eloquência. No actual Parlamento, 60 pessoas transformaram a actividade parlamentar num espectáculo digno de uma arena romana durante a decadência desse antigo império.
Quem poderá defender, “com estudos” e bons telhados, a nossa república sempre tão atacada por anseios recompositórios de estruturas de poder medievais? O Almirante, que não encontra destrinça ontológica entre a cultura militar e a civil? e se houver uma guerra? deixará o Almirante de ser um soldado para ser um político? Ninguém pode ser quem não é. AJS também não pode ser o António Costa de Marques Mendes, muito menos de André Ventura. Nem Catarina Martins pode ser a mulher protagonista de uma disrupção que daria um novo rosto à Presidência da República – um rosto de mulher, para variar. Não pode por causa da natureza da sua herança partidária. E também Jorge Pinto, um total desconhecido até há poucas semanas, não pode ser o presidente de esquerda com que sonham o Livre e os moderados da chamada esquerda radical (coisa que não existe, asseguro-vos, em Portugal presentemente). Nem António Filipe pode ser o Cunhal que desce pelo Forte de Peniche abaixo a driblar o Almirante. Restar-nos-á votar em Manuel João Vieira, o descomplexado palhaço de serviço (magnífico músico e líder dos Ena Pá 2000 e dos Irmão Catita, filho do pintor João Vieira, e ele próprio pintor) que desta vez reuniu um recorde de assinaturas?
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