CRÓNICA AGUDA

Sarah Adamopoulos

Sou de esquerda. Bem sei que muitos dizem que já não existe tal coisa, mas para mim, como para muitos outros, existe, e sei o que significa. Ser de esquerda, para mim, quer dizer que defendo a Igualdade: a igualdade de oportunidades na vida, favorecida pelo acesso à educação formal proporcionada sem custos, ou a custos baixos, pela Escola pública; a igualdade nos cuidados de saúde, possibilitada pelo acesso a um serviço nacional de saúde que trate todos por igual, e tenha um programa público de apoio social a quem tenha alta hospitalar mas não tenha para onde ir; a igualdade na autodeterminação de quem se é biológica e/ou mentalmente, possibilitando que o género (feminino, masculino, ou neutro) de cada pessoa possa ter, sem infame humilhação, a sua própria auto-representação, que a mudança de nome não seja um problema administrativo, que a mudança de sexo não seja psiquiatrizada. Trabalhei muitas vezes o tema da transexualidade quando era jornalista, e aprendi que a diferença tem muitas formas, e que a excepção, em biologia, também se aplica ao ser humano. A igualdade reprodutiva e na morte, para que cada pessoa decida, sem o obstáculo infelizmente muito comum da falta de recursos económicos e/ou da objecção de consciência dos médicos, se e quando quer ter um filho, e se e quando quer morrer, sem ter de se matar sozinha e às escondidas, deixando gerações de descendentes feridos pelo trauma do suicídio. A minha mãe suicidou-se – talvez a sua morte, desejada pela sua quase cegueira e, sobretudo, por uma depressão crónica e jamais tratada, pudesse ter sido concretizada de um modo mais humano, na presença dos seus filhos, no conforto disso, sem ter de pagar muito dinheiro para ir morrer com dignidade à Suíça, ou sem ter de pedir aos filhos que realizassem por ela um procedimento ilegal, que teria tido consequências nas suas vidas. Defender a Igualdade nestes planos todos, entregando ao arbítrio individual o poder de tomar as decisões individuais (filosóficas, ou religiosas, ou existenciais, ou espirituais, ou cívicas, ou políticas) sobre a vida e a morte pressupõe que, para mim, ser de esquerda é evidentemente defender a Liberdade. Sem Igualdade não há Liberdade.

Ser de esquerda é estar do lado dos mais frágeis, dos que não nasceram proprietários, dos que sobrevivem, dos que têm muita dificuldade em ter esperança, dos imigrantes,  dos que não conseguem sair dos ciclos de pobreza material que os tornam pobres de muitos outros modos, alegadamente por não terem deixado ninguém ensiná-los a pescar, como gostam de dizer os moralistas simplistas, que na miséria apenas veem uma preguiça, uma vontade firme e consciente de não fazer nada para melhorar a própria vida. Ser de esquerda é ter um coração compassivo, que compreende e aceita o outro com as suas fragilidades, fraquezas e origens. É não sucumbir ao cinismo confortável dos sovinas e outros individualistas, caso dos misantropos, que desdenham na Humanidade inteira o que em si mesmos os desgosta, e assim fazendo perdem a noção muito importante da sua verdadeira escala nos planos cósmico e antropológico. Ser de esquerda como sou é sentir compaixão também pelas pessoas de direita, ao contrário dos que são sectária e desumanamente de esquerda – uma ideia que contém em si mesma um paradoxo, claro.

Por tudo isto, e apesar dos apesares (i.e., dos conservadorismos bafientos que veem neoliberalismo onde apenas há uma possibilidade de liberdade – a liberdade de não ser o Estado a decidir sobre coisas muito pessoais – e dos velhos tabus do século XX que inibem o PCP de ter um discurso aceitável sobre a actual crise na Venezuela, por exemplo), considerei votar em António Filipe, que era em quem Constança Cunha e Sá iria votar, com a inteligência e a sensibilidade de quem via nesse candidato à Presidência da República um genuíno defensor do povo. Aqui deixo a minha pequenina homenagem à Constança, desaparecida no final de 2025, uma mulher com uma cabeça aberta, cheia de elegância e graça naturais, de quem tive o prazer de ter sido colega (os mais esquerdalhos dirão camarada) n’O Independente, uma redacção onde a sociedade portuguesa estava mais bem representada do que muitos imaginam.

Quis muito votar a favor do povo, num candidato da velha esquerda centenária, por não ter alternativa e não me sentir representada noutras candidaturas. Mas não o farei. Vou votar com sensibilidade e bom senso, no centrao que detesto, para evitar cenários piores.

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