Sou de esquerda. Bem sei que muitos dizem que já não existe tal coisa, mas para mim, como para muitos outros, existe, e sei o que significa. Ser de esquerda, para mim, quer dizer que defendo a Igualdade: a igualdade de oportunidades na vida, favorecida pelo acesso à educação formal proporcionada sem custos, ou a custos baixos, pela Escola pública; a igualdade nos cuidados de saúde, possibilitada pelo acesso a um serviço nacional de saúde que trate todos por igual, e tenha um programa público de apoio social a quem tenha alta hospitalar mas não tenha para onde ir; a igualdade na autodeterminação de quem se é biológica e/ou mentalmente, possibilitando que o género (feminino, masculino, ou neutro) de cada pessoa possa ter, sem infame humilhação, a sua própria auto-representação, que a mudança de nome não seja um problema administrativo, que a mudança de sexo não seja psiquiatrizada. Trabalhei muitas vezes o tema da transexualidade quando era jornalista, e aprendi que a diferença tem muitas formas, e que a excepção, em biologia, também se aplica ao ser humano.
A igualdade reprodutiva e também na morte, para que cada pessoa decida, sem o obstáculo infelizmente muito comum da falta de recursos económicos e/ou da objecção de consciência dos médicos, se e quando quer ter um filho, e quando quer morrer, sem ter de se matar sozinha e às escondidas, deixando gerações de descendentes feridos pelo trauma do suicídio. A minha mãe suicidou-se – talvez a sua morte, desejada pela sua quase cegueira e, sobretudo, por uma depressão crónica e jamais tratada, pudesse ter sido concretizada de um modo mais humano, na presença dos seus filhos, no conforto disso, sem ter de pagar muito dinheiro para ir morrer com dignidade à Suíça, ou sem ter de pedir aos filhos que realizassem por ela um procedimento criminalizado que teria tido consequências nas suas vidas. Defender a Igualdade nestes planos todos, entregando ao arbítrio individual o poder de tomar as decisões individuais (filosóficas, ou religiosas, ou existenciais, ou espirituais, ou cívicas, ou políticas) sobre a vida e a morte pressupõe que, para mim, ser de esquerda é evidentemente defender a Liberdade. Sem Igualdade não há Liberdade.
Ser de esquerda é estar do lado dos mais frágeis, dos que não nasceram proprietários, dos que sobrevivem, dos que têm muita dificuldade em ter esperança, dos imigrantes a tentar sobreviver, dos que não conseguem sair dos ciclos de pobreza material que os tornam pobres de muitos outros modos, alegadamente por não terem deixado ninguém ensiná-los a pescar, como gostam de dizer os moralistas simplistas, que na miséria apenas veem uma preguiça, uma vontade firme e consciente de não fazer nada para melhorar a própria vida.
Ser de esquerda é ter um coração compassivo, que compreende e aceita o outro com as suas fragilidades, fraquezas e origens. É não sucumbir ao cinismo confortável dos sovinas e outros individualistas, caso dos misantropos, que desdenham na Humanidade inteira o que em si mesmos os desgosta, e assim fazendo perdem a noção muito importante da sua verdadeira escala nos planos cósmico e antropológico. Ser de esquerda como sou é sentir compaixão também pelas pessoas de direita, ao contrário dos que são sectária e desumanamente de esquerda – uma ideia que contém em si mesma um paradoxo, claro.
Por tudo isto, e apesar dos apesares (i.e., dos conservadorismos bafientos que veem neoliberalismo onde apenas há uma possibilidade de liberdade – a liberdade de não ser o Estado a decidir sobre coisas muito pessoais – e dos velhos tabus do século XX que inibem o PCP de ter um discurso aceitável sobre a actual crise na Venezuela, por exemplo), considerei votar em António Filipe, que era em quem Constança Cunha e Sá iria votar, com a inteligência e a sensibilidade de quem via nesse candidato à Presidência da República um genuíno defensor do povo. Aqui deixo a minha pequenina homenagem à Constança, desaparecida no final de 2025, uma mulher com uma cabeça aberta, cheia de elegância e graça naturais, de quem tive o prazer de ter sido colega (os mais esquerdalhos dirão camarada) n’O Independente, uma redacção onde a sociedade portuguesa estava mais bem representada do que muitos imaginam.
Quis muito votar a favor do povo, num candidato da velha esquerda centenária, por não ter alternativa e não me sentir representada noutras candidaturas. Mas não o farei. Vou votar com sensibilidade e bom senso, no centrao que detesto, para evitar cenários piores.
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