As bolsas de criação literária

O Ministério da Cultura tem um programa de financiamento de apoio à actividade literária actualmente chamado Programa Anual de Bolsas de Criação Literária. Já obtive duas bolsas, uma em 2002, para prosa, e outra em 2023, esta semestral, para escrita dramatúrgica. No último trimestre de 2025 voltei a apresentar uma candidatura para um dos meus projectos de escrita. Soube há dias que não fui seleccionada. Fiquei triste, claro.

Este texto serve para dizer que os escritores mais velhos, para dizer os mais experientes, com vários livros publicados, como eu própria, não deveriam ver os seus projectos literários sujeitados a um escrutínio que os põe lado a lado com toda a gente que gostava de tentar escrever, ou que gostava de ver avaliado o seu talento para a escrita, porque tem, por exemplo, e para referir um grande chavão, “uma paixão pela escrita” – coisa que nenhum escritor habitualmente tem, por razões que não cabem aqui mas que se prendem muitas vezes com o sofrimento que a escrita gera, pois o escritor é uma voz de muitos, e isso é uma aventura existencial para muito poucos, mesmo que muitos se apresentem como escritores (porque já publicaram um livro, por exemplo, ou porque publicam todos os anos, ou porque ganharam um prémio, ou dois, ou porque costumam ir à Póvoa e a Óbidos).

A arte é antes de mais um ofício, qualquer arte o é. Um ofício para o qual se é compelido por uma vocação (i.e., uma necessidade que se exprime com inata capacidade) e que se pratica, e não uma inspiração divina cujo sopro fizesse a sua aparição quando o escritor se senta para escrever. Todos os dias é preciso escrever, para se ser um escritor. Ler, traduzir, rever, pensar, escrever, dar o corpo a isso, ao longo dos anos. Ver crescer uma obra, por vezes com dificuldade, como quando se é obrigada a uma “escrita alimentar”, para poder pagar as contas da vida. Ver crescer essa dita obra, por vezes cheia de amolgadelas, ou de hiatos, ou faltando-lhe uma coerência formal, um começo um meio e um fim, o todo apresentando-se como deve ser, como se a arte fosse uma empreitada de uns quantos patamares em vez de uma propriedade imanente, que por vezes (que muitas vezes) a sociedade embarga, e o escritor morre dentro de si, cheio de medos que não tinha à partida, receando incomodar a sociedade, que por vezes lhe diz: “Vai mazé trabalhar que tens bom corpo!”

Há muitos anos escrevi isto.

Dizer, por fim, que os escritores ainda muito novos, ainda com a mão para fazer, a vida de escrita para viver, têm evidentemente o direito de ver o desenvolvimento da sua arte apoiado pela tutela, pois a arte não tem uma razão de ser comercial, sendo dever do Estado apoiá-la financeiramente.

Portugal, meu remorso…! (A. O’Neill)

Posted in

Deixe um comentário