António José Seguro e o “democrata pleno”

Votei em António José Seguro (AJS) nas 1.a e 2.a voltas das eleições presidenciais deste ano. Votei assim por pragmatismo, pondo o meu idealismo de lado e colaborando para um desfecho que premiasse a solução possível à esquerda. Fui entusiasticamente costista no passado, apesar de nunca ter militado no Partido Socialista, nem em qualquer outro partido. Não tenho estômago para o militantismo, para o unanimismo que sempre pressupõe, para os seus rituais e tradições, para os votos de moções de mão no ar, para as discussões internas que replicam modos de fazer anacrónicos, para a dificuldade que os partidos têm em acomodar o pensamento dissidente, para os compromissos a que obrigam, também, pois penso pela minha própria cabeça e não consigo, nem quero conseguir, ser de outro modo. Um dia tentei ser do Bloco de Esquerda mas logo desisti. Talvez não consiga ser de nada nem de ninguém, não me gabo apenas alvitro.

Dito isto, votei pois com sensibilidade e bom senso em António José Seguro, sobre quem semanas antes havia dito que havia nele e desde sempre qualquer coisa que não acontecia, questionando (veementemente) a sua capacidade de liderança.

A vida é assim, de vez em quando mostra-nos a que ponto estávamos errados, a que ponto tudo pode mudar, a que ponto não é possível conhecer quem quer que seja, a que ponto não há perspicácia e experiência de vida que possam ao menos valer um pouco, pois afinal, quando uma constelação diversa de todas aquelas em que havíamos pensado, totalmente imprevisível, se instala na realidade e a muda, ficamos pasmados – perdemos o pé.

António José Seguro, de quem me recordo ainda muito novinho, quase de bibe e a sair da escolinha do PS, tem demonstrado ser um Presidente e pêras. Entre a derrota que sofreu aquando das Primárias do PS, em que participei votando cheia de convicção em António Costa, e o momento de arrebatar com inédita unanimidade a eleição presidencial deste ano, alguma coisa de fundamentalmente importante aconteceu. AJS fez-se um homem. Saúdo o homem em que se tornou. O discurso que hoje, 25 de Abril de 2026, proferiu na Assembleia da República, recordou o que Portugal era antes do 25 de Abril, um país anacrónico e miserável, conduzido por medíocres, cujo povo o regime reprimia e abandonava à sua sorte, cujas mulheres eram tratadas como seres humanos inferiores a quem se podia sonegar direitos fundamentais, cujos dissidentes eram perseguidos até à morte. Nada poderia ser mais importante, pois o 25 de Abril é sobre isso, e não sobre o democrata que, por não ser pleno, antes tendo um défice, porventura nascido da sua longa exposição à redacção original da Constituição da República de 1976, prefere esquecer o 25 de Novembro, ou até mesmo apoucá-lo, e nunca, mas nunca celebrá-lo, irra!

Neste dia, o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, discursou sobre uma figura que ainda não conhecíamos: o democrata pleno.

Na imagem (c) Lusa: O democrata pleno sem cravo

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