
(c) Lusa – Rita França
14 de Novembro de 2012. Pedro Passos Coelho, o castigador de piegas, governa o país com uma mão de ferro manobrada a partir de Bruxelas e leva tudo à frente: as pensões dos mais velhos, os impostos sobre os rendimentos dos mais fracos, os pequenos negócios, os comércios. O país enche-se de lojas fechadas, milhares de pessoas emigram, outras (ou então as mesmas) perdem as suas casas, que deixaram de poder pagar ao banco, ou ao senhorio, a miséria espalha-se como uma lepra.
Em 2013 escreverei sobre o dilema entre querer ficar em Portugal e precisar de sair (Partir, teatro, que o Francis Seleck encena em Almada e o Rui Cabrita em Messines). Em 2014 traduzo O Capital no Século XXI para a Temas&Debates (Thomas Piketty) e passo o mês de Agosto a escrever sobre os que não tinham dinheiro para ir de férias (Agosto, 2023). Escrevo para me salvar, para não morrer de tristeza. Desolação é a palavra que vejo lá ao longe onde ainda ontem se lia Hollywood. Desolation. Acabou o filme do crescimento perpétuo, os 30 Gloriosos já lá vão há muito, acordem ó vítimas que a fome vem lá outra vez.
Telefono ao meu pai a perguntar-lhe se, acaso eu viesse a precisar, me receberia em sua casa. A mim e à minha filha, que ainda estava a estudar, no meio de enormes dificuldades. Aos 48 anos pergunto isto ao meu pai. No ano anterior, bem antevendo o que lá vinha, tinha-me mudado para Almada Velha por não mais ser possível pagar a minha renda de casa em Lisboa Antiga. A minha vida muda completamente. O jornalismo já tinha começado a acabar em 2010, quando nas redacções se havia cortado nas colaborações. Freelancer, que o mesmo era dizer precária, não mais era possível viver do meu jornalismo de texto longo, que já ninguém queria publicar. O lema era o seu oposto absoluto: o texto curtíssimo, útil, breve, ligeiro, news-to-use e deita fora que amanhã há mais. Acabou-se o jornalismo literário.
14 de Novembro de 2012. Dia de Greve Geral. Em Lisboa, em frente ao Parlamento, uma manifestação cresce. Um rapazito da polícia de choque bate-me com um bastão. Ainda lhe digo que tenho idade para ser mãe dele e que estou na menopausa e me pode magoar os ossos mais fraquinhos dessa metamorfose da vida das mulheres. O que digo parece gasolina, pois bate-me ainda mais, e desato a correr pela Calçada do Combro acima e só paro no Camões, para me sentar e chorar. Chorar de choque. Como podia Passos Coelho governar pela força bruta? Como podia o Estado do meu país agredir-me assim? Miguel Relvas tinha dado a ordem, disso soube mais tarde. Durante meses, enquanto perdurava uma dor na zona lombar onde o rapazito da polícia de choque me tinha bastonado, pondero processar Miguel Macedo, o então Ministro da Administração Interna, já desaparecido.
Esta semana, depois de dois momentos de violência policial no Porto, o dia 14 de Novembro de 2012 voltou a crepitar na minha memória. O dia em que descobri que a minha integridade física e mental podia ser destruída pelo Estado num instante, em nome da Ordem Pública e da Lei. Como se a Ordem Pública e a Lei fossem mais importantes do que o superior respeito pela Dignidade da Vida Humana. Mais importantes do que a Democracia. Mais importantes do que intransigente defesa da Liberdade de Expressão e de Manifestação. Mais importantes do que a Capacidade de Diálogo, do que a Capacidade de Empatia, do que a Capacidade de Compaixão. Mais importantes do que o Direito à Habitação. Mais importantes do que o Futuro das Novas Gerações.
Para Pedro Duarte, o implacável da Invicta, são-no. Resta saber quem deu a ordem para bater nas pessoas. E até quando será possível manter a Ordem Pública se as pessoas não têm casa e a nova lei do arrendamento vai tornar o Direito à Habitação uma maior miragem ainda. E no entanto, a Habitação é um Direito Constitucional e um Dever Político dos governantes, incluindo Pedro Duarte. Uma escolha, portanto. Muito dificultada pela desregulação do Mercado Globalizado, bem o sei, mas uma escolha. A de quem escolhe proteger os seus munícipes e cidadãos, ou não.
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