A vida é mestra da ironia, já se sabe: no momento em que no Porto começou a instalar-se na Praça Dom João I, em frente ao Rivoli, um protesto cidadão pela habitação, o actual Presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, lançava o 1.º número de uma revista municipal chamada Praça. “Vemo-nos na Praça”, anuncia o título do texto editorial assinado por Pedro Duarte que abre a nova publicação, fazendo um breve exercício de contextualização histórica e simbólica da revista, que se reclama herdeira de A Praça Nova, um livro publicado em 1916 no qual o seu autor, Alberto Pimentel, descreveu a antiga Praça Nova, hoje Praça da Liberdade, como “uma assembleia ao ar livre”. Uma assembleia de todos onde tudo seria assunto e debate, descreve Duarte. Aos eléctricos bastava que dissessem Praça que toda a gente ficava logo a saber qual era o destino dos carros. Duarte explica também que o título da nova revista recupera não apenas essa palavra como também a sua herança: uma publicação que quer dialogar com os portuenses, i.e., os que vivem e/ou trabalham na cidade do Porto. Um instrumento de “escrutínio da acção municipal”, escreve o Presidente da Câmara do Porto, sublinhando a natureza fundamental da revista: um canal aberto entre a edilidade e os munícipes, e não um instrumento de propaganda, isso não, implicitamente sugerem as suas palavras. “É essa a missão da Praça: aproximar”, reitera, declarando que “a cidade somos todos nós”, os que queremos “acompanhar o caminho [da cidade] e participar no futuro que, como comunidade, estamos a construir.”
Tudo considerado, fica uma pergunta: por que razão não pode Pedro Duarte reunir com os manifestantes da Acampada na Praça Dom João I, onde tudo começou e tem acontecido? Por que razão deveriam os manifestantes deslocar-se aos gabinetes da Câmara Municipal do Porto onde os governantes da cidade (o Presidente da Câmara, mas também vereadores, mas também advogados) se colocam necessariamente numa relação vertical, de poder destes sobre aqueles? Não será o Presidente da Câmara um representante do povo? Não é nessa qualidade que foi eleito? O seu mandato, a termo, contingente, escrutinado, não se regerá pela horizontalidade simbólica própria de uma democracia? Por que razão não pode Pedro Duarte ir ter à praça com os manifestantes, em mangas de camisa e sem polícia? Terá medo de quê? Que os protestos pela habitação sejam uma espécie de revolução francesa e depois ele é guilhotinado? Que os protestos pela habitação sejam uma reedição de uma jornada de unidade e luta do PREC e depois Vasco Gonçalves volta da tumba e toma o poder, agora a partir do Porto, com a colaboração decisiva dos muitos polícias empobrecidos e com problemas de habitação? Alguma lei o impede? Apelo a que o faça, desse modo agindo sobre uma realidade que exige dos actuais governantes humildade, coragem política, abertura de espírito, capacidade de diálogo a toda a prova, com toda a gente, incluídos os adversários políticos (para designar quem pensa politicamente de forma diferente).

Deixe uma Resposta