Estas linhas vão buscar emprestado o título de um disco dos GNR que foi editado em 1986, fez 40 anos em Setembro passado. Nele se espelhava um país que queria ser novo, outro, mas que ainda se debatia com enormes problemas infra-estruturais – e também com uma carga cultural densa, antiga como as mais primitivas de entre as mais primitivas pedras, tradicionalista até ao tutano e orgulhoso de sê-lo – como se toda a tradição pudesse perdurar sem a modernidade para a consagrar – “orgulho analfabeto mas com cultura geral/[…] com lama no Natal e [sem] saneamento básico” (tema Nova gente, título também de uma revista de ‘paparazzismo’ que ainda existe). Assim sucede: é a modernidade que determina as condições de sobrevivência da tradição. Um enorme problema para Portugal, onde a modernidade faz literalmente o caminho das pedras para se afirmar. Portugal, cantado pelos GNR, era uma ilha “sem sabor tropical” com “demografia acidental […] difícil de recensear” (outra designação para uma população abandonada pelos poderes: quem eram todos esses pobres que viviam nas ilhas do Porto? Os poderes não queriam saber. Eram mandriões no vale fértil.). Um vale que era, que é, um lugar mental que “não está cercado por água mas não faz mal/quem a rodeia por vezes é a força policial”. Quem o rodeia por vezes é a força. Como se a força pudesse duas vezes rodear um povo para sempre. E pensando no modo de comunicar a governação de Montenegro (que do que mais gosta é de vir anunciar o último grande negócio), logo me vêm à memória as declarações do primeiro-ministro Cavaco Silva durante o longo estertor da sua trágica governação a pedir para o deixarem trabalhar – Cavaco, o pai tirano que Luís Montenegro (e também Luís Neves, na Administração Interna) procuram replicar, com trágico determinismo e uma perspectiva do poder que efectivamente cheira a ditadura. A esturro, portanto.

Deixe uma Resposta