Lisboa, 1972. A renda da casa custava 2800 escudos. Às vezes, depois de pagar a renda, não podíamos comprar os livros da escola. Ou botas para o Inverno. Ou sandálias para o Verão. Comíamos do que o merceeiro nos fiava. Todos os meses era preciso pagar a renda. Era mesmo preciso, não havia volta a dar, a vida estava assim organizada, havia quem tinha casas onde não precisava de morar e havia quem não tinha casa alguma e precisava de alugar uma a quem tinha. Combinava-se um valor, a renda, e todos os meses quem não tinha casa pagava esse valor a quem, para além dessa que alugava, tinha outra casa para morar. Havia quem tivesse 1551 casas: uma na qual morava e 1500 outras que alugava. Conheci uma pessoa assim. De vez em quando ia visitá-la, para lhe pedir tempo para lhe pagar as rendas que lhe estava a dever. Ela começava por me receber com quatro pedras na mão, as mãos atrás das costas para eu não ver as pedras, pois na verdade tinha vergonha de estar ali a fazer aquela figura, e jamais arremessaria contra mim qualquer pedra, mas tinha de fazer aquele teatro, ao menos um primeiro acto, por vezes antecedido de uma longa e palavrosa abertura, como nas óperas:
A menina quer tempo mas eu tempo é que não tenho, porque cheguei aqui de madrugada, antes dos meus funcionários, e até à menina chegar foi só tragédias, pessoas como a menina, que não têm onde cair mortas, ou se têm é porque eu sou um coração mole, e foi só por causa disso que ainda não as despejei, e se a minha família soubesse que ando a tomar estas decisões sem os consultar, ai eu nem quero imaginar, e a realidade é que dou tempo às pessoas como a menina, dou-lhes dias, dou-lhes semanas, por vezes até meses lhes dou, (gritando já) MESES!!!, bem digo que sou um coração mole, mas depois as pessoas não retribuem, e não pagam mais nada, e se for preciso desaparecem, e nunca mais as vejo, e ficam a morar nas minhas casas durante anos, ANOS!!, e eu aqui como posso a esconder isso da minha família, não admira que depois precise de calmantes, pois (agora olhando-me finalmente) até já falámos disso não foi? Como tem andado? Ai eu ando péssima, PÉSSIMA!!, nem queira saber…!
Eu não me importava de saber, pois gostava dela, e compreendia-a, porque éramos ambas humanas. Nesse momento ela voltava a ser humana, sempre éramos iguais, bem me parecia, por mais que a organização da sociedade o negasse. mas seguidamente, antes ainda de me deixar falar, fazia-me um eloquente monólogo sobre as suas circunstâncias. Eu sentava-me, e ouvia, com deleite e infinita paciência, compadecida por aquela boa alma de quem poderia ter sido amiga, não fora as circunstâncias como nos conhecêramos. A família tinha-a tramado, e agora ela tinha de ir àquele escritório quase todos os dias para tratar das 1500 rendas: celebrar novos contratos de arrendamento – a celebração de uma tragédia, o infortúnio de ter 1500 casas que tinham mesmo de estar alugadas, e o ainda maior infortúnio de quem tinha de prometer pagar a renda mesmo se não tivesse a certeza de como honraria tal imprudente compromisso; ou então iniciar processos de despejo, despejando (ou seja, perdendo o pejo, isto é, o pudor), por vezes debaixo das pontes, famílias inteiras de pessoas perfeitamente humanas e com direitos, embora nesses dias ainda não constitucionalmente consagrados.
Nunca chegámos a ser despejados debaixo da ponte mas a nossa mãe tomava calmantes e às vezes dizia que queria morrer. Não queria, sempre achei – queria apenas parar de viver, para não ter de pensar na renda.

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